

Depois que o compositor Kevin Puts revelou à mezzo-soprano Joyce DiDonato que queria musicar poemas de Emily Dickinson (1830-1886), uma série de acontecimentos resultou em um dos mais arrebatadores ciclos de canções dos últimos tempos. “Durante a primeira temporada de As Horas, ópera de Kevin, em que eu interpretava Virginia Woolf, ele me disse: ‘Joyce, adoraria escrever mais para você’”, revela DiDonato ao Apple Music Classical. Pouco tempo antes, Puts também tinha composto e gravado Contact, álbum com o trio de cordas Time for Three – e que ganharia um Grammy. Foi ali que ele enxergou a combinação perfeita para dar vida à poesia visionária e atemporal de Dickinson. “Acho que seria eletrizante vocês juntos”, disse Puts a DiDonato. E assim foi. Inspirado pela combinação inusitada de dois violinos e um contrabaixo do Time for Three, pela versatilidade dramática e técnica de DiDonato e pelo entusiasmo dos quatro músicos pelo potencial do projeto, Puts se empenhou em criar músicas com uma originalidade extraordinária. As canções não se encaixam em nenhum gênero e transitam entre ópera, teatro musical e rock para captar a força emotiva dos poemas de Dickinson. “Parece que as palavras de Emily Dickinson estavam à espera da música de Kevin”, diz DiDonato. Na primeira canção, “They shut me up”, uma vibração visceral e insistente nas cordas agudas evoca a raiva e a sensação de injustiça de Dickinson em relação ao mundo restrito em que vivia. “Dickinson estava presa em um mundo de prosa, que era a sociedade, o calvinismo, o fim da Guerra Civil e as ideias rígidas do que uma mulher deveria ser”, diz DiDonato. “E ela tentava se manter funcional, então se isolou do mundo e mergulhou cada vez mais nesse universo que podia criar.” Um sentido de urgência parecido permeia “The Soul selects her own Society”, em que linhas melódicas suaves e um ritmo irregular se fundem. Já em “I Felt a Funeral”, uma representação poderosa de Dickinson sobre o colapso mental, Puts utiliza o contrabaixo para evocar um tambor fúnebre, enquanto vocais flutuantes e harmonias desconcertantes refletem a ideia central do poema. Em um típico lampejo de inspiração, Puts usa a intensidade dramática do barroco para salientar a metáfora arquitetônica em “The Props assist the House”, enquanto em “Her Face”, o violinista Charles Yang faz um dueto com DiDonato com sua bela voz de tenor. “Isso foi realmente transformador”, diz Yang, do Time for Three. “Kevin me deu a oportunidade de mostrar um outro lado do que eu normalmente faço, com uma artista que está no auge. Foi uma experiência muito significativa.” Em cada canção ficam evidentes a entrega e a técnica de DiDonato e do Time for Three. “A gente buscava essa troca de energia, de dar e receber de volta, de brincar com o momento”, diz o violinista Nick Kendall, sobre a dinâmica dos quatro músicos. “Kevin compõe assim, ele compõe para a emoção. Eu conheço o trabalho de Joyce há muito tempo, é como se fosse mais um instrumento que tem tudo a ver com o coração.” O contrabaixista Ranaan Meyer concorda. “Nunca sinto que estou apenas tocando o contrabaixo no grupo. Nunca. Nem por um segundo. É como a sensação que algumas pessoas descrevem ao surfar ou esquiar: você encontra um respiro – e o tempo parece que para. É espontâneo, improvisado, flexível, maleável, fluido.” Essa confluência aparentemente perfeita de talentos é resultado de muito ensaio e reflexão, algo incomum no mundo da música clássica, em que os artistas pulam de um projeto para outro com frequência. “Eu nunca tinha trabalhado dessa forma em uma nova peça”, diz DiDonato, que passou um ano se dedicando a Emily – No Prisoner Be com o Time for Three. “Acho que Kevin já tinha 13 ou 14 peças prontas quando a gente se encontrou pela primeira vez na Juilliard (School, em Nova York). Trabalhamos nelas e todos nós contribuímos. Foi o período mais estimulante da minha carreira, estar no estúdio sem egos.” Kendall concorda: “Na nossa área, os músicos profissionais geralmente falam ‘A gente não precisa saber da história, só nos mostre quais são as notas que a gente toca. Nós somos treinados e vamos fazer um trabalho bem feito’.” Mas, segundo Meyer, antes de cada sessão de gravação, eles faziam diferente. “Joyce entrava no estúdio, reunia todo mundo e lia o poema, só para nos concentrar”. O resultado é um conjunto de obras cujo impacto foi muito mais profundo do que os músicos esperavam. “Eu acho que não tinha noção do efeito que esta peça teria”, diz Kendall. “Como as lágrimas, as poças de lágrimas que surgem da plateia quando a gente toca ao vivo. As pessoas vinham falar com a gente depois das apresentações tomadas por uma emoção intensa. E isso está no álbum.”
30 de janeiro de 2026 26 faixas, 1 hora 5 minutos ℗ 2026 Time for Three LLC and Joyce DiDonato under exclusive license to PLATOON Ltd.
GRAVADORA
PlatoonProdução
- Silas BrownProdução
- David LaiProdução
- Angie TeoEngenharia (gravação)
- Silas BrownEngenharia (mixagem), Engenharia (masterização), Engenharia (edição), Engenharia (gravação)
- David LaiEngenharia (gravação)
- Jim PapoulisEngenharia (gravação)