

Com 12 faixas inéditas, o compositor e instrumentista Corciolli lança No Time But Eternity, o mais novo álbum da carreira de quase 30 anos. Com inúmeros projetos, o músico entende que a criação de faixas instrumentais, sem letras, permite uma produção em maior escala, principalmente se somadas aos recursos disponíveis hoje em dia. “O processo criativo é bastante generoso com quem pode trabalhar com elementos tecnológicos", diz ele ao Apple Music. “Você consegue produzir as ideias de maneira apropriada e consegue viabilizá-las com relativa facilidade. Quando comecei, as coisas eram mais difíceis, você precisava de estúdios, [mas] hoje não mais. E isso não significa que a qualidade artística ou que a criatividade não são altas, mas as ferramentas ajudam bastante no processo de produção. Com isso, cheguei a gravar até dez álbuns simultâneos.” Fundador da gravadora Azul Music, o compositor paulistano atrela as suas quase três décadas de carreira ao fato de sempre se reinventar. “Eu nunca me acomodei. Quando lanço um álbum, já fico pensando no próximo: ‘Como posso melhorar?’.” Com esse pensamento de sempre se superar, Corciolli procurou pessoas que o inspiravam para esse novo trabalho. “Tive a oportunidade de mixar esse álbum com Alan Meyerson, engenheiro de som que trabalha com Hans Zimmer e que tem mais de 200 filmes no currículo, como Gladiador, Dunkirk, Rei Leão e muitos outros”, conta. “Trabalhar com pessoas assim traz o que eu chamo de frescor. Parece que estou começando de novo, como se fosse a primeira vez. Aliás, estamos fazendo faixas em Dolby Atmos, como é o caso de ‘Hope’, que foi remasterizada com essa tecnologia. Muito legal.” Produzido durante a pandemia da covid-19, No Time But Eternity foi feito durante um processo introspectivo do artista que, por pior que estivesse o cenário mundial, focava em transformar o negativo em positivo. “É possível se beneficiar de maneira criativa. Eu não fiz músicas tristes, por mais melancólicas e nostálgicas que elas sejam. Ao mesmo tempo, há o elemento da esperança, de dizer que vamos superar isso tudo e que dias melhores virão.” Quanto à parte técnica, Corciolli conta que começou escrevendo músicas para quarteto de cordas e piano. “Quando eu comecei a trabalhar com essa formação, inevitavelmente eu incorporei os sintetizadores eletrônicos, que é uma coisa que está bastante presente na minha música, junto com o piano. Não dava para dissociar. Quando percebi que os sintetizadores traziam mais elementos orquestrais, eu adicionei trompas e percussões.” Por fim, o título No Time But Eternity remete à “urgência para resolver os problemas do mundo”, segundo o compositor. “Não há mais tempo a perder. E, ao mesmo tempo, o que nós fizermos ficará para toda a eternidade. É uma coisa que está muito espelhada em uma frase do filósofo Marco Aurélio, que diz: ‘O que fazemos agora, ecoa na eternidade’. Temos de tomar iniciativas e atitudes, não apenas olhar os outros.” A seguir, Corciolli explica cada uma das 12 faixas do álbum No Time But Eternity. No Time But Eternity “Ela tem esse caráter mais melancólico, um pouco minimalista, que vem de uma inspiração de compositores como Erik Satie. Esse é o tipo de coisa que desenvolve uma melodia quase que modal, uma melodia cíclica, mas ao mesmo tempo vai desenvolvendo e contando essa história que tem muito a ver com o sentido de urgência e com essa mudança que nós precisamos fazer para que a humanidade se realinhe no planeta. E acho que, como uma consequência natural dessa música, veio a segunda faixa, que é ‘Coexistence’.” Coexistence “Nessa música, eu experimentei umas coisas diferentes com as cordas, justamente para mostrar como poderia ser o diálogo entre o piano e as cordas, a coexistência do arpejo que estava acontecendo no piano junto às melodias que o quarteto estava tocando. Musicalmente tem esse sentido e, em termos de temática, também veio com essa intenção de coexistência.” Gaia “A terceira faixa, ‘Gaia’, é um antigo nome grego para o planeta Terra e já traz uma vertente completamente diferente. Ela começa com percussões e mistura tecnologia com ancestralidade. Ela tem a percussão de ritmos meio africanos e meio étnicos, e tem a sequência de sintetizadores por baixo, criando contraste com essa tecnologia da ancestralidade, e tendo o convívio entre eles como base. E tem os violinos e o piano fazendo a melodia para que contem essa história. Então ‘Gaia’ é uma música que tem vários desdobramentos e movimentos que misturam tecnologia e ancestralidade. Há essa dicotomia entre as percussões e os atabaques junto com a sequência de sintetizadores eletrônicos.” Yerazel “’Yerazel’ significa ‘sonhar’ em armênio. E é uma música que eu fiz com um elemento de Oriente Médio, com uma escala oriental. Tive a oportunidade de chamar Arsen Petrosyan, um músico armênio muito conhecido e respeitado para participar dessa faixa. Ele tem um trabalho maravilhoso e toca um instrumento de sopro armênio parecido com um oboé, chamado duduk, um instrumento ancestral dos povos do Cáucaso. Foi incrível porque ele levou a música para um outro caminho, muito mais rico. Eu diria que talvez essa seja uma música que tem um DNA mais étnico.” Utopia “Em seguida, vem uma música chamada ‘Utopia’, que no fundo é também um pouco uma música que utiliza elementos eletrônicos em sequências, com um baixo contínuo que vai desenvolvendo uma melodia no piano e vai acrescentando instrumentos de cordas com os elementos eletrônicos. Ela tem um tom meio futurista e um interlúdio no qual eu usei vários efeitos, principalmente na mixagem. Essa faixa ganhou a mixagem do Alan Meyerson, que conseguiu colocar várias camadas e espaços dentro dela, o que acabou ficando bem interessante.” Ulimwengu “Continuando o discurso do álbum, porque eu sou da escola antiga: comecei em 1993 e acredito em um projeto completo, não apenas para ouvir uma música de maneira aleatória. Essa faixa é muito interessante, porque é uma música afro. Eu queria uma letra em dialeto africano, e foi muito complicado conseguir, então resolvi fazer uma pesquisa e consegui encontrar algumas palavras em suaíli [principal língua da África subsaariana]. Com ajuda da internet, pesquisas e muito mais, montei uma letra. Fui atrás para descobrir onde se fala mais suaíli e cheguei ao Quênia e à Tanzânia. Então fui atrás de artistas do Quênia e encontrei uma música em especial que me chamou muita atenção. Fui ver o artista, e ele se chamava Eric Wainaina. Fiquei encantado, completamente hipnotizado pela música dele, pela voz cantada em dialeto africano. Entrei em contato com ele, a gente fez um ‘call’, eu aqui no Brasil e ele no Quênia, em Nairóbi, e ele adorou a música. Depois descobri que Eric é um artista bastante engajado em questões humanitárias, é representante da ONU e luta pelos direitos humanos na África. É inacreditável como o universo conspirou para que eu o achasse para cantar.” Interplace “Ela é como se fosse um interlúdio, como se fosse uma música de filme, totalmente etérea, com sons e espaços em que você consegue ouvir os vários elementos acontecendo, principalmente ao ouvi-la com fones de ouvido. É bem interessante.” Hope “Como o próprio nome diz, é uma música esperançosa, alegre, dinâmica, que vê um novo raio de luz brotando. Um clima de que as coisas vão dar certo.” Moondust “Muito parecida com ‘Interplace’, essa também é bem cinematográfica, mas um pouco mais lenta. Uma viagem cheia de detalhes e texturas de sintetizadores. Ela é feita ao piano, com as cordas, feita como uma trilha de filme. A faixa passa também a sensação de aridez.” One Sky Above “É uma música inspirada em um poema do Carlos Drummond de Andrade, que diz: ‘Não importa a distância que nos separa se há um céu que nos une’. Eu acho isso maravilhoso, porque é a ideia de que todos estamos unidos em um só planeta.” Dystopia “Diferente de ‘Utopia’, essa tem um caráter denso, em que coloquei uns violinos ressonantes, junto com um desenvolvimento muito cinemático, meio trilha de filme. Com um sentimento meio sinistro e melancólico, para falar da destruição que fazemos na Terra. Talvez essa seja a tradução dela, uma faixa muito interessante.” Tales From The Future “Uma viagem para um futuro longínquo, olhando de volta para 2021, pensando no que aconteceu com a humanidade nestes tempos. Uma viagem de mil anos adiante, pensando no que nós estamos fazendo.”
12 de novembro de 2021 12 faixas, 1 hora 5 minutos ℗ 2021 Azul Music
EDITORA
Azul MusicNeste álbum
Vini Ngugi
Composição

Eric Wainaina
Composição
Produção
- CorciolliProdução
- Alan MeyersonEngenharia (mixagem)
- Carlos FreitasEngenharia (masterização)
- Adonias Souza Jr.Engenharia (gravação)
- Rushab NandhaEngenharia (gravação)