"Se Bach pode ser tocado em um piano moderno, por que não obras inglesas para teclado dos séculos 16 e 17? As galhardas, fantasias, pavanas e prelúdios de Byrd, Gibbons, Bull, Sweelinck e outros compositores da época foram originalmente compostos para órgão, virginal ou cravo, mas este álbum mostra que as partes vocais dessas peças são salientadas pelo piano, que também confere texturas mais claras e oferece possibilidades dinâmicas às obras. “O piano tem uma ressonância maior e uma enorme variedade sonora, o que lhe dá um aspecto quase vocal – e isso se relaciona com a tradição vocal de onde se origina boa parte dessas peças”, diz a pianista britânica Mishka Rushdie Momen ao Apple Music Classical.
O nome do álbum, Reformation (2024), se refere à Reforma Anglicana, o conturbado período de ruptura religiosa na Inglaterra do século 16, que se revelou uma época importante da música antiga – boa parte das obras aqui foi composta no final desse período. Mishka Rushdie Momen demonstra um conhecimento profundo da articulação e da ornamentação da música antiga e combina isso com uma sensibilidade moderna. Sua interpretação precisa revela um toque luminoso e, principalmente, uma expressividade contida que faz jus ao espírito das obras. “Eu tentei ser fiel à natureza emocional das peças, então usei bastante o pedal abafador para manter a coloração suave de algumas danças intimistas”, diz Rushdie Momen, sobrinha do escritor Salman Rushdie.
A pianista molda a introspectiva e labiríntica Fantazia of Foure Parts, de Gibbons, com grande serenidade, conferindo importância às linhas sinuosas e produzindo um crescente arco dramático. “Essa deve ser a minha obra preferida de Gibbons”, diz ela. “O entrelaçamento do contraponto é extraordinário e, de certa forma, é uma peça muito introspectiva. Ela começa só com uma linha e cresce a partir disso. É uma obra linda que se desenvolve perfeitamente. É como se Gibbons pegasse o ouvinte pela mão e o conduzisse pela música.”
O álbum começa com quatro obras de William Byrd, um dos mestres da música para coral, ao lado de Tallis e Gibbons. Rushdie Momen considera Byrd “a figura paterna dos quatro compositores do álbum” e destaca a Pavana Lachrymae, versão da canção popular “Flow, my tears”, de John Dowland. “Byrd capta o lirismo da música de Dowland ao mesmo tempo que revela a magia do teclado, com harmonias lindas e uma figuração maravilhosa. Acho que essa obra é a introdução perfeita para quem quer conhecer mais esse repertório.”
Quando se trata de energia virtuosa, John Bull é imbatível. Suas variações da balada Walsingham (citada em Hamlet, de Shakespeare) “são exuberantes e revelam o talento de Bull como virtuoso”, diz Rushdie Momen. “Essa é uma característica da música renascentista para teclado que não é muito lembrada, porque as pessoas – principalmente aquelas que a conhecem pelas obras para coral – talvez não saibam que essa música pode ser emocionante, empolgante e vibrante.”
Uma obra do compositor holandês Sweelinck está inserida no repertório inglês e simboliza a proximidade entre a Holanda e a Inglaterra na época. Composta com seis notas em escala ascendente e descendente, “Ut, re, mi, fa, sol, la a 4 voci” é um exemplo da sofisticação de Sweelinck. “Quando eu era estudante, ficava com muita inveja dos meus colegas cravistas que estudavam Sweelinck”, diz Rushdie Momen. “Naquela época eu não percebia que aquela música também estava disponível para mim.”
Reformation marca o início da aventura de Rushdie Momen no universo da música renascentista inglesa, algo ainda relativamente desconhecido pelo público moderno. A pianista tem uma teoria sobre isso: “Talvez as pessoas achem que, porque esses compositores viveram numa época difícil e conturbada, a música deles também seja assim. Mas é uma música muito alegre, aberta e transcendente. Acho que a gente poderia mostrar mais esses aspectos”."