Para o pianista canadense Bruce Liu, um álbum é mais do que uma coletânea de gravações: é uma jornada. Lunaris é uma sequência de obras com curadoria cuidadosa que explora luz e escuridão, realidade e imaginação, íntimo e infinito. O álbum transporta os ouvintes das paisagens familiares das sonatas “Moonlight” e “Waldstein”, de Beethoven, para a atmosfera transcendental de Dream, de John Cage, composta quase 150 anos depois. “Tocar Beethoven é interessante, mas já foi feito milhões de vezes”, diz Liu ao Apple Music Classical. “Queria encontrar meu próprio propósito ao reunir estas peças.”
Idealizado por Liu em colaboração com sua gravadora, a Deutsche Grammophon, o nome “Lunaris” sugere não apenas a lua (“luna”), mas também as visões sombrias e futuristas de Solaris, a ficção científica do cineasta Andrei Tarkovsky, lançada em 1972. A viagem de Liu nos leva além do romantismo do noturno n.º 8 de Chopin, que abre o repertório, para uma seleção mais rara, como as primorosas miniaturas ao luar de Frederic Mompou, inspiradas na canção folclórica francesa “Clair de la lune”, e a marcante representação do inverno, ou “hivernale”, de Reynaldo Hahn. “A noite é um estado de ser, parece frágil e suspensa”, descreve ele. “É quando a minha criatividade começa. O mundo externo se aquieta, mas o mundo interior abre um espaço para a imaginação e os sonhos.”
Um notívago assumido, Liu diz que queria evocar a solidão e a quietude da madrugada, quando, após um concerto, seus pensamentos podem vagar livremente. A terceira peça do álbum, Rêverie, de Debussy, “captura aquele momento em que a consciência começa a divagar, a sensação de um limiar entre o mundo real e o mundo dos sonhos”, explica Liu. O delicado toque folclórico de Tokka, da cantora e compositora dinamarquesa Agnes Obel, também evoca uma suspensão temporal, enquanto o arranjo de Alexander Siloti para o prelúdio de J.S. Bach é “mais próximo de uma espécie de meditação, uma atmosfera. Depois da intimidade de Chopin e do Debussy onírico, é como se tudo fosse reduzido à sua essência: a música parece simplesmente respirar de forma calma e cada nota carrega um senso de inevitabilidade. O relógio parou, então podemos começar a explorar o lado humano novamente.”
Esse lado humano emerge com mais força na luta da escuridão rumo à luz da sonata “Waldstein”, de Beethoven. Mas há sempre também o sentimento de algo transcendental no som que Liu produz ao longo deste álbum. Ouça novamente a clareza imaculada com que cada nota da melodia canta no noturno de Chopin: é surreal. Em vez de usar apenas um piano de cauda de concerto, Liu gravou este álbum em dois pianos – um Yamaha e um Steinway com dois teclados –, às vezes executando a mesma obra em cada teclado antes de combinar diferentes tomadas durante a pós-produção. “Em um concerto, você está sempre sacrificando suas escolhas porque só tem um instrumento”, afirma ele. “No estúdio, pensei: ‘Por que não experimentar?’”
Para Liu, o processo de edição é apenas mais um meio de explorar a miríade de cores em jogo, como na sonata para piano n.º 4, de Scriabin, uma jornada mística em direção a “infinitas possibilidades luminosas”, inspirada na sinestesia (a capacidade de “ver” notas e tonalidades como cores) do compositor. É também uma das maneiras pelas quais Liu pode realçar o distanciamento frio do estudo n.º 4, de Ligeti, e a estranhamento cerebral da primeira das 6 Kleine Klavierstücke atonais de Schoenberg. Enquanto isso, na peça de Cage, na qual o mesmo material é ouvido três vezes, Liu usa um teclado diferente para cada seção, ajudando a produzir o final perfeito sem uma resolução. “Depois de todas essas diferentes formas de noite, não há mais drama ou direção, apenas som e tempo”, diz o pianista. “Tudo está suspenso.”